A língua coloquial é um instrumento de identidade e comunicação eficaz no seu meio. A norma culta é uma ferramenta de acesso ao poder, ao conhecimento formal e à mobilidade social. O objetivo da escola não é eliminar a variedade coloquial do aluno, mas ampliar seu repertório linguístico, ensinando-o a "codificar e decodificar" a variedade padrão.
A dificuldade dos Professores em lidar com os "Vícios de Linguagem"
O primeiro passo é mudar a terminologia. O termo "vício de linguagem" é pejorativo e estigmatizante. O mais adequado é falar em "variante linguística" ou "desvio da norma padrão". Essa mudança de perspectiva é crucial.
As principais dificuldades dos professores são:
Formação Insuficiente: Muitos pedagogos não têm formação robusta em Sociolinguística, que ensina justamente que a língua é viva e variada.
Conflito Interno: Como corrigir sem constranger? Como valorizar a identidade cultural da criança enquanto ensina uma norma que pode parecer "estranha" para ela?
Falta de Recursos: Falta material didático que parta da realidade linguística do aluno para chegar à norma culta, e não o contrário.
Pressão por Resultados: A cobrança por desempenho em avaliações padronizadas (como a Prova Brasil) pode fazer o professor optar por métodos tradicionais de correção, que nem sempre são os mais eficazes.
Como facilitar o Ensino do Português no dia a dia (Sem Ser Metódico)
A chave é a imersão e a prática contextualizada. Tornar o aprendizado invisível, natural e significativo.
Estratégias práticas para a sala de aula e para casa:
1. Modelagem e Expansão (A técnica mais poderosa):
Em vez de dizer "está errado", reformule a frase do aluno de forma correta, expandindo seu significado.
Aluno: "Professora, onde que você botou minha prova?"
Professor: "Ah, quer saber onde eu coloquei a sua prova? Está aqui na minha mesa, veja como você foi bem!"
Você não corrigiu de forma negativa; você forneceu o modelo correto dentro de um contexto de conversa natural.
2. Leitura diária e diversificada:
A leitura é a principal ferramenta para internalizar a norma culta.
Leia em voz alta todos os dias: histórias, notícias curiosas, piadas, instruções de uma receita.
Varie os gêneros textuais: quadrinhos, revistas, livros de aventura, poemas, letras de música. Cada gênero traz estruturas diferentes.
Converse sobre o texto: "O que o personagem quis dizer com isso?" Isso trabalha interpretação e vocabulário.
3. Jogos e brincadeiras linguísticas:
Jogo da Pronúncia: Brinque de "repórter" ou "apresentador de TV" (que usam a norma culta formal).
Forca, Stop, Palavras Cruzadas: Desenvolvem vocabulário e ortografia de forma lúdica.
Criação de Histórias Coletivas: O professor começa uma história, cada aluno acrescenta uma frase. O professor pode, sutilmente, ajudar a estruturar as frases.
4. Uso de mídias e tecnologia:
Criar um podcast ou um jornal da turma: As crianças precisam escrever o roteiro (prática da escrita formal) e depois gravar (prática da oralidade formal).
Assistir a programas educativos ou documentários: O áudio e a narração costumam usar um português muito claro e correto.
5. Valorizar a Língua do aluno em momentos específicos:
Crie o "Momento do Causo": Reserve um tempo para as crianças contarem histórias do seu dia a dia, usando a linguagem delas. Isso mostra que você valoriza o que elas têm a dizer.
Trabalhar com Música: Use uma música funk ou um rap que os alunos gostem. Analise a letra com eles: "Veja como o artista usa a linguagem para expressar uma emoção. Na poesia, isso é permitido. Em um texto informativo, como faríamos diferente?"
6. Ensino Contextualizado da Gramática:
NUNCA comece pela regra. Comece pelo texto.
Exemplo: Ao invés de dar uma aula sobre concordância verbal, pegue um texto que produziram com o erro comum ("Os menino foi brincar"). Pergunte: "Quantos meninos são? Um ou vários? Se são vários, como falamos? 'Os meninos foram brincar'. Vejam como soa melhor?" Isso é ensinar gramática com função social, não de forma abstrata.
Comentários
Postar um comentário